A manhã acordava com serenidade.
O inverno estava no ar e em seu nome o amanhecer chegava enrolado na escuridão. Pedro, nove anos incompletos, acabara de acordar e ainda sem coragem de afastar o cobertor, cruzara os braços sob a cabeça e imaginava o "dia pesado" que teria pela frente. Tudo por causa do tio Roberto...
Ah, esse tio Roberto. Na noite anterior, quando acabara de contar a
História do Castelo dos Sonhos, tinha passado uma série de tarefas imensas.
Primeiro precisaria contar e pintar em seu diário quantas cores existiam no céu logo ao amanhecer e, ao mesmo tempo, relatar o formato das nuvens distantes.
Formariam navios, ou pareceriam cavaleiros com lanças e bandeiras?
Logo depois do café da manhã outra tarefa aparecia e Pedro precisaria entrevistar diversas pessoas, anotando em sua caderneta quantas espécies de árvores diferentes havia no quarteirão, cada uma com seu nome popular.
Já sabia do pé de nêspera e sabia também do velho jacarandá e dos dois eucaliptos, mas Deus do Céu, não seria nada fácil descobrir o nome de todos os outros. Mas, não havia jeito se não cumprisse as tarefas passadas pelo tio, não poderia andar de "carruagem" e nem mesmo ser por ele levado até o parque de diversões.
- Homem... Murmurou Pedro, levantando-se.
Um inverno inteiro pela frente e trabalheiras imensas a cumprir.
Além das primeiras missões e ainda antes das dez, precisava colher amoras e ameixas, vestindo-se de galhos, folhas e flores até chegar às águas do pequeno regato. Lá, tinha que descobrir sozinho qual margem era à esquerda, qual a direita e com o auxílio do cronômetro do tio Roberto, fazer um cálculo sobre a velocidade da correnteza. Quanto tempo um broto de bananeira atirado às águas gastaria para percorrer a distância entre a ponte e o bosque dos bambus? Esse tio Roberto tinha cada uma...
Pedro sabia que a manhã estava cheia de tarefas para cumprir.
Uma semana nas férias de julho e de dezembro, o pai e a mãe lhe permitiam dormir na casa de vovó, onde morava esse incrível tio Roberto. Sabia que sua semana não seria nada fácil e que logo na chegada da noite teria que com o tio visitar a torre dos magos, que se vestiam de raios e trovões. Nem esperança de poder ligar a televisão, nem pensar em se prender aos seus adorados videogames. Com tio Roberto as missões eram imensas e as horas corriam como fantasmas. Nesse inverno, como no inverno passado, não existia dia igual a outro e como Roberto falava sempre existem dias de perfume para exercitar o olfato, mas existiam dias de escutar, para aprender a não apenas ouvir. Havia dias de apalpar, dias de lamber e todos os dias, Pedro bem o sabia, eram dias de ver.
Com tio Roberto não existia essa história de apenas olhar...
Para terça-feira o programa já estava montado. Tinha com o primo Rubens e com sua irmã Carolina ir com Roberto entrar mata adentro, descobrir o recanto onde se escondiam os ventos silenciosos, invisíveis nas profundezas do verde no inverno, mas de onde apenas saiam quando a primavera chegasse.
Se a tarefa fosse apenas essa... Mas, nunca era, pois o tio vivia inventando charadas, propondo desafios, fazendo de suas respostas mais perguntas, cada uma mais maluca que outras. Por certo, iria fazer buracos no chão e descobrir milhões de anos em folhas velhas, se amontoando ao pé das árvores.
Muitas coisas com esse tio, as crianças aguardavam acontecer...
- Sim - Pedro estremeceu - não podia existir a menor dúvida: com ou sem razão, dias com tio Roberto eram dias muito especiais...
Celso Antunes
O inverno estava no ar e em seu nome o amanhecer chegava enrolado na escuridão. Pedro, nove anos incompletos, acabara de acordar e ainda sem coragem de afastar o cobertor, cruzara os braços sob a cabeça e imaginava o "dia pesado" que teria pela frente. Tudo por causa do tio Roberto...
Ah, esse tio Roberto. Na noite anterior, quando acabara de contar a
História do Castelo dos Sonhos, tinha passado uma série de tarefas imensas.
Primeiro precisaria contar e pintar em seu diário quantas cores existiam no céu logo ao amanhecer e, ao mesmo tempo, relatar o formato das nuvens distantes.
Formariam navios, ou pareceriam cavaleiros com lanças e bandeiras?
Logo depois do café da manhã outra tarefa aparecia e Pedro precisaria entrevistar diversas pessoas, anotando em sua caderneta quantas espécies de árvores diferentes havia no quarteirão, cada uma com seu nome popular.
Já sabia do pé de nêspera e sabia também do velho jacarandá e dos dois eucaliptos, mas Deus do Céu, não seria nada fácil descobrir o nome de todos os outros. Mas, não havia jeito se não cumprisse as tarefas passadas pelo tio, não poderia andar de "carruagem" e nem mesmo ser por ele levado até o parque de diversões.
- Homem... Murmurou Pedro, levantando-se.
Um inverno inteiro pela frente e trabalheiras imensas a cumprir.
Além das primeiras missões e ainda antes das dez, precisava colher amoras e ameixas, vestindo-se de galhos, folhas e flores até chegar às águas do pequeno regato. Lá, tinha que descobrir sozinho qual margem era à esquerda, qual a direita e com o auxílio do cronômetro do tio Roberto, fazer um cálculo sobre a velocidade da correnteza. Quanto tempo um broto de bananeira atirado às águas gastaria para percorrer a distância entre a ponte e o bosque dos bambus? Esse tio Roberto tinha cada uma...
Pedro sabia que a manhã estava cheia de tarefas para cumprir.
Uma semana nas férias de julho e de dezembro, o pai e a mãe lhe permitiam dormir na casa de vovó, onde morava esse incrível tio Roberto. Sabia que sua semana não seria nada fácil e que logo na chegada da noite teria que com o tio visitar a torre dos magos, que se vestiam de raios e trovões. Nem esperança de poder ligar a televisão, nem pensar em se prender aos seus adorados videogames. Com tio Roberto as missões eram imensas e as horas corriam como fantasmas. Nesse inverno, como no inverno passado, não existia dia igual a outro e como Roberto falava sempre existem dias de perfume para exercitar o olfato, mas existiam dias de escutar, para aprender a não apenas ouvir. Havia dias de apalpar, dias de lamber e todos os dias, Pedro bem o sabia, eram dias de ver.
Com tio Roberto não existia essa história de apenas olhar...
Para terça-feira o programa já estava montado. Tinha com o primo Rubens e com sua irmã Carolina ir com Roberto entrar mata adentro, descobrir o recanto onde se escondiam os ventos silenciosos, invisíveis nas profundezas do verde no inverno, mas de onde apenas saiam quando a primavera chegasse.
Se a tarefa fosse apenas essa... Mas, nunca era, pois o tio vivia inventando charadas, propondo desafios, fazendo de suas respostas mais perguntas, cada uma mais maluca que outras. Por certo, iria fazer buracos no chão e descobrir milhões de anos em folhas velhas, se amontoando ao pé das árvores.
Muitas coisas com esse tio, as crianças aguardavam acontecer...
- Sim - Pedro estremeceu - não podia existir a menor dúvida: com ou sem razão, dias com tio Roberto eram dias muito especiais...
Celso Antunes
Um comentário:
Olá, gostei muito do seu blog. Ele é muito bom.
Parabéns!
Um abraço
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